Nota Estelar #28: 28
Hoje, 28/04, fiz 28 anos. Escrevo essa carta celebrando um ciclo que se fechou - o dos vinte e sete anos. Quando eu era criança/adolescente, os aniversários serviam para olhar adiante, lançar a visão para o horizonte, esperar e perseguir a novidade. Depois de tempos de amadurecimento e construção subjetiva, fui desenhando meu jeito próprio de enxergar e executar hábitos convencionais (como o de envelhecer) e hoje tenho prezado muito mais pelo movimento de olhar para trás em datas como essa - como quem faz a trilha e, numa altura suficiente, se põe a observar o trecho de grama aberto pelo caminhar. Nos últimos anos passei a refletir sobre a última idade (e não a que se inaugura) e fico feliz com a paisagem cruzada.
Nos meus vinte e sete anos me tornei mais confiante, sobretudo por aceitar contradições, falhas e limitações pessoais. Experimentei o amor em diversos cantos de seu espectro. No romântico abdiquei de controle e de definições. Existe esse aprendizado importante depois que você sai da casa dos pais que envolve confiar na própria sobrevivência sob outros modos de se expor ao mundo.
Acredito que pude permear com mais sensibilidade e verdade uma relação ao trair os excessos de cuidado que recebi dentro do primeiro ninho. Toda mãe vai incluir na sua bagagem itens a mais sem perceber que ela mesma foi capaz de sobreviver e mover montanhas em meio a escassez de recursos e noção de mundo. No final das contas, estamos todos improvisando. Quando investi no mistério mesmo com medo, sem a destreza que todos esperamos ter para nos permitimos alçar voo, limpei minha visão e corri um perigo que confirma que estou vivo. Falar de amor evoca abstrações, espero estar me comunicando com alguém que amou, que ama ou esteja estudando amar.
Não tenho medo de envelhecer, mas tenho medo de esquecer de quem eu era quando mais novo. Também tenho receio de me apegar à idealização da juventude. Tenho feito coisas novas e mantido rituais antigos mesmo com a feiura, estranheza e inexperiência que marcam minha travessia. Nos meus vinte e sete anos aprendi a me aproximar de quem me acolhe nesses processos por vezes quebrados ou, no melhor dos cenários, simplesmente inacabados - e venho me instruído a ser alguém carinhoso com essa natureza disforme do meu próprio corpo, da minha personalidade, ofício, sentimentalismo, enfim. Isso inclui estar menos presente nas redes sociais.
Toda vez que repito sobre meu descontentamento com as redes me sinto prolixo. Por isso tenho usado menos a linguagem e sido mais prático. No ano passado disse para a minha terapeuta que, se nos meus vinte e sete meu desejo era ser amigável comigo mesmo, agora, nos vinte e oito, desejo ser prático.
Recentemente ministrei uma aula sobre cadernos de artista aos alunos de desenho da Unicamp e conversei com uma senhora que está migrando da medicina (após vinte anos de clínica psicanalítica) para as artes visuais. Disse a ela que no fundo, criação e vida se baseiam em aplicação de força indutora: você precisa colocar detergente na esponja antes de pensar em lavar louça. Precisa reunir os materiais na mesa antes de traçar planos mentais de pintura. As redes sociais são câmaras de eco do desejo. Falta prática (e mais: esses buracos digitais nos sequestram a energia motriz).
No último ano trabalhei em cerca de sete livros, escrevi um projeto de pesquisa, dei aulas e oficinas e integrei a produção de cenários de um longa-metragem animado. Tenho trabalhado muito - e isso me dá o privilégio de estar longe do instagram. Minha grande meta profissional era essa: não depender de uma vitrine. Converso com meus editores, agentes e diretores. Troco desenhos com meus amigos, preencho meus cadernos e publico em meu blog. Não permito que a criatividade se cristalize ou dependa do fluxo do algoritmo para ser recepcionada.
Ultimamente venho comprando molduras e dando um lugar físico para a minha criação. Desejo observar de perto como algo tão antigo e que me mobiliza se comporta nesse contexto diferente de trabalho e exposição. Acho arriscado assumirmos que as redes sociais são um destino universal e obrigatório para nossa tessitura artística. Ainda mais levando em consideração o viés ético, político e desumanizador que rege esses sistemas.
Vinte e oito sempre foi meu número da sorte. Eu gostava de sua aparência desde pequeno: a junção de dois simpáticos números pares. Essa é a única vez que terei vinte e oito em um dia vinte e oito. A comemoração tem se prolongado. Viajei pro Rio de Janeiro recentemente com meus bons amigos de Limeira, comemoramos o aniversário da Paula Cruz, essa pessoa que mal acredito que posso chamar de amiga.




Fomos a praia, fizemos uma visita guiada num percurso literário-histórico do centro, assistimos a uma peça incrível, exploramos o MAR, comemos muita coisa boa, demos altas risadas e mergulhamos em novas profundidades da amizade.




Em Campinas, à convite do professor Tiago Bassani, dei uma aula na Unicamp onde versei sobre linguagem gráfica e caderno de artista. Os alunos ficaram emocionados e me senti tocado por ocupar tal função.


Há quase dez anos eu era um vestibulando e não passei da primeira fase no curso de Artes Visuais dessa mesma universidade. Hoje sou convidado a entrar nas salas para apresentar minha criação - e isso novamente comprova que, ser adulto, é desvelar as convenções e descobrir outros meios de realizar sonhos.
No dia seguinte conversei com os primeiros anos da escola COC de Campinas sobre “O Jeguinho Tenório”. Meu livro foi adotado pela instituição e fui lindamente homenageado com pinturas dos alunos. Fiquei perplexo com o carinho e dedicação. É incrível perceber como minha obra atravessa outras pessoas, mobiliza professores, diretores e coordenadores, faz parte de outros lares, comunica pais e mães sobre narrativas de infância e, sobretudo, põe os pequenos num percurso de alfabetização e letramento emocional.
Sou um autor realizado justamente devido a essas oportunidades de pertencer às escolas e, no fim do dia, olhar para trás e ver todo o trajeto percorrido até aqui. Passei o fim do dia lendo, desenhando e autografando os livros dessas crianças tão curiosas e enérgicas.
No mesmo dia, na sexta-feira, eu e meu amigo Henrique assistimos ao show do Zé Ibarra. Esse é um nome promissor na cena MPB. Ele é um ex-bala-desejo. O álbum “AFIM” foi um dos meus mais ouvidos no ano passado. Gosto demais das suas letras, da voz e da cadência que marca a unicidade do trabalho musical do Zé. É tão refrescante ver ao vivo artistas brasileiros que estão preocupados em executar um show sofisticado, que tem “artistry” e, com poucos recursos materiais, mas com um leque poético, constroem e difundem um repertório lírico e melódico autoral.



No sábado acordei cedinho e aproveitei a rotina. Treinei pela manhã, lavei roupa, arrumei quarto, separei peças de roupa para doação (uma sacola enorme), comecei uma pintura (estou na minha fase de desenhar cavalos), ouvi música e saí para fazer compras para receber meus amigos de ateliê em casa.
Montei uma mesa nos fundos de casa, embaixo dos pés de fruta, para aproveitarmos o sereno fresco da noite. Bebemos, demos risadas, aprendemos sobre biologia com meu amigo João (que está em sua segunda graduação e insistente na obsessão e difusão do conhecimento sobre baleias) e finalizamos a noite contando histórias de terror macabras. Quase não durmo. Me coloquei na cama com o coração cheio por ter amigos como Luciana, Márcio, Ciro, Bia, Isadora, Yumi, Pedro, João e Sofia. Sou muito sortudo.


No domingo de manhã finalizei o quadro. Assisti vlogs de artistas que acompanho e me encontrei com uma das minhas melhores amigas. Almoçamos e passamos a tarde zanzando e procurando peças de roupa. Nos despedimos e me encontrei com a vizinhança para um churrasco celebrativo na rua.
Meu companheiro veio também e a noite foi muito gostosa. As crianças fizeram kits com mensagens carinhosas e balas para os motoristas que passavam lentamente na rua.
Desde ontem fiquei com minha companhia predileta. Hoje pela manhã, instintivamente, o deixei dormindo para ir correr - digo instintivamente pois não é comum que eu me levante às 5:30.
Pareceu um presente do sono me despertar para ver o sol nascer. Choveu na segunda à noite e essa terça amanheceu úmida, fresca e com uma neve neblina pairando no gramado do bairro.
Fiz três quilômetros, voltei para a casa e fomos tomar café da manhã numa padaria gostosa do bairro. Passei o resto do dia digerindo minha refeição predileta e avançando na produção do filme e de uma nova pintura (de aniversário) que em breve publico completa em meu blog.

Pela noite fui para o Xilomóvel e encontrei meus amigos de ateliê. Comprei um bolo para não deixar o aniversário passar em branco - meu companheiro foi também e testou gravura pela primeira vez. Ficamos comendo, tomando café, botando papo em dia. Avancei na finalização de um livro (ainda em produção) e comecei a gravar uma nova matriz com um cavalo-marinho.


Nos próximos dias vou ao show da Ana Frango Elétrico e também acampo com meus amigos do Ilustrata. Escolhi celebrar meu aniversário dessa forma, num camping que adorei ir no carnaval desse ano, pois nada melhor do que estar na natureza, numa cidade pequena, fazendo trilha para cachoeiras, mergulhado na piscina, jogando sinuca, assistindo cinema no projetor ao ar livre, com sua segunda família.

Gosto de envelhecer apesar da mítica colocada em cima disso. Significa que estou vivo, fermentando situações que desabrocham mais tarde em forma de memória e narrativas. Diariamente surgem dificuldades e anseios: lutos que me sondam e dúvidas que arriscam tirar o sono, mas como disse antes, venho aceitando o descontrole, a contradição do mundo e tenho como recompensa assistir meu próprio crescimento e aptidão para lidar com o que antes se mostrava tão difícil.
Eu, que me considero tão comunicativo, estou me tornando mais silencioso e contemplativo, não abafando os grilos com minha própria voz. Acredito que tudo passa, o bom e o ruim, e se eu não me fizer atento a esses eventos enquanto eles acontecem, consequentemente deixo de me perceber também - e eu gosto da sensação de estar em mim.
Até uma próxima,


















